Capítulo Final: Onde a Suruba acaba repentinamente sem que os autores tenham comido ninguém

Como dizia ontem, antes de ser interrompido pelos dois-pontos, o Dr. Gregório chutou a porta do banheiro onde estavam Claudio e Suruba e, até que enfim, cansado de ficar com a perna imóvel ao longo de mais de um mês, gritou:

Tomamos no cu!

Ali dentro, Claudio transava loucamente com Suruba, na famosa posição Ana Seus Lábios São Labirintos Ana, que consiste em foder a parceira da mesma maneira que Humberto Gessinger fode os ouvidos pátrios: incessantemente. No caso, Cláudio fazia o papel de ouvido. Daí, surpreso, ter perguntado ao médico:

Você também?
Nem pensar falou Dr. Gregório, coração na mão como refrão de bolero, sincero como não se pode ser.

Afinal, pouco ligado ao rock e, menos ainda, ao coito passivo, Gregório usara o verbo “foder” no sentido figurado e por uma razão muito simples: ao adentrar o recinto, percebeu, através de uma janela, que um míssil gigantesco cortava os céus do Rio Grande do Sul e descaía perigosamente na direção do Guaíba.

Ou isso, ou se tratava de um Boeing vindo do Oriente Médio e os controladores de vôo estavam em greve. Porque o fato é que, em sua lateral, o artefato trazia uma frase sinistra, escrita em árabe: “Id-al-amin, ego-al-amad, superego-al-maluf, al-cácer-al-kibir, al-cachofra habib’s”. Palavras que, vertidas para o português, significam: “Alalaô, ô, ô, ô, mas que calor, ô, ô, ô”.

Eu sei. Vários leitores que desconhecem a introdução do Mattia Pascal estão pensando agora que tudo o que ficou dito no parágrafo acima é ridículo, por absolutamente inverossímil. No entanto, rebato, não há por que duvidar da veracidade do ocorrido. Pode até não ser comum, mas não chega a ser improvável. Aliás, nem é tão raro assim: eu mesmo já vi vários banheiros com janela.

Explicado esse detalhe, informo agora que, dias antes, Mahmoud Ahmadinejad havia concluído a construção de sua almejada bomba atômica, acoplando-a em seguida, com igual sucesso, a um míssil intercontinental. De posse daquele armamento poderoso, que lhe restava fazer? Não é preciso perguntar. Os inimigos que o presidente do Irã sonhava destruir havia décadas eram, lógico, Kleiton e Kledir.

Todos sabem que durante a mocidade, em noites de boemia para lá de Teerã, Ahmadinejad costumava freqüentar o Al-Bar para tomar uma al-cerveja ou um al-gualdente. Naquela época, o Brasil se dedicava a exportar três tipos de porcarias para o mundo árabe: jogadores de futebol, Passat e discos de MPB. E o dono do Al-Bar era fã da dupla gaúcha, sendo de sua particular predileção “Fecha al-luz, apaga al-porta”, sucesso dos anos 80.

Foi escutando “Deu Pra Ti, Baixo Zoroastral”, no entanto, que o jovem Ahmadinejad desenvolveu seu ódio à civilização cristã e certa propensão a esfolar judeus. Segundo psicanalistas consultados por mim, inclusive, a dupla é em grande parte responsável pelo traço terrorista do caráter do líder iraniano, de resto sujeito pacato, pai amoroso e algoz gentil.

“Qual a relação entre Kleiton e Kledir e os hebreus?”, você me pergunta. E eu lhe respondo: não sei. Mas acho que tem a ver com o fato de os primeiros serem gaúchos, ou seja, fazem parte de um povo que, a exemplo do israelense, vive em guerra com um território vizinho. No caso dos judeus, a Palestina; no dos gaúchos, o Brasil.

Mas, voltando ao Dr. Gregório. Um segundo após ver a cena e soltar seu interpretaço, ouviu uma réplica em árabe:

AL-CABRUM! —  exclamou a ogiva, que acabara de tocar nos glúteos pétreos da estátua do Laçador, famoso monumento porto-alegrense ao Viado Desconhecido, desencadeando o processo de fissão nuclear que exterminaria milhões de mulheres, gays, velhos e crianças, além de dois homens, na região conhecida atualmente como Grande Lagoa dos Patos e que pertencia ao antigo estado do Rio Grande do Sul.

Eis aí como tudo aconteceu. Suruba, Claudio e Dr. Gregório desapareceram da face da Terra num átimo e, com eles, aquela briosa unidade da Federação que tantos favores nos prestou historicamente, sobretudo em seu papel precípuo de nos manter afastados da Argentina.

No final das contas, de toda a população gaúcha e aí vai a nota mais trágica desta história , restou apenas uma pessoa, uma única senhora, a qual, tudo indica, não morrerá nunca: minha sogra.

Termina assim a novela. Aliás, exatamente como começou e se manteve desde o princípio: com um objeto longo, duro e grosso fodendo a pobre Suruba.

Aos que reclamam que a heroína não abriu a boca durante os dois últimos capítulos inteiros, gostaria de informar que a finada Suruba era moça educada e não falava de boca cheia.

AL-FIM

Capítulo Semifinal: Da natureza do interpretaço

No final do capítulo anterior, enciumado, o Dr. Gregório dá um chute na porta do banheiro onde estavam Claudio e Suruba e solta um interpretaço, seguido de dois-pontos, que, como se sabe, é o tipo mais letal de interpretaço.

A partir daí, a narrativa é suspensa. E devo dizer que não se via suspensão narrativa desse porte desde a greve de roteiristas de Hollywood, pois se passou um mês desde o fim daquele texto, de modo que se nossa narrativa sofresse de fobia de altura, estaria agora rouca.

A prolongada espera, no entanto, tem um significado. O que aparentemente não tem significado algum é a palavra interpretaço. Ninguém aqui no OPS, pelo menos, sabe do que se trata, muito menos Milton Ribeiro, que quando escreveu o texto estava bêbado ou tinha comido cocô (uma terceira corrente defende ter ele comido cocô enquanto estava bêbado).

A princípio, cogitamos na possibilidade de interpretaço ser gíria do Rio Grande para “cu”. Assim, Milton Ribeiro teria descrito um possível ménage à trois, em que o Dr. Gregório soltava o interpretaço dele para Claudio e este colocava no compreensaço de Suruba.

Entretanto, alguém sugeriu depois que interpretaço consistia em eufemismo para “peido”. Hipótese razoável, porque, de fato, há pessoas que, nos momentos mais graves e em função de excessiva atividade nervosa, costumam eufemismar seguidamente, não sendo outro o motivo por que na guerra se usam máscaras de gás.

Não obstante, um terceiro indivíduo garantiu ainda que interpretaço era, na verdade, o apelido carinhoso dado pelo Dr. Gregório à sua bengala. O que, devo dizer, facilitaria bastante meu trabalho, pois, sendo o médico manco, tendo soltado o apoio e chutado a porta do banheiro, a frase que viria depois dos dois-pontos, dita por ele, não poderia ser outra, senão:

— Socorro! Alguém me ajude a levantar!

Por fim, ouviu-se uma nova idéia, a de que interpretaço seria tão-somente um neologismo desprovido de sentido e de apelo fonético inútil, ou seja, por uma questão de amizade, consideração e estilo, Milton Ribeiro quis utilizar um recurso literário próprio de seu amigo Marcelino Freire. Sem falar que terminou o capítulo usando dois-pontos, coisa absolutamente ridícula, que um homem dotado de um palmo de nariz não deveria se permitir fazer.

Em suma, após trinta dias de aprofundados debates, concluímos brilhantemente que o Dr. Gregório chutou a porta do banheiro onde estavam Claudio e Suruba e gritou algo em seguida.

E agora, após esse breve preâmbulo, revelo suas palavras, que foram as seguintes:

(QUEM ESPEROU UM MÊS, PODE ESPERAR MAIS UM DIA. O TEXTO CONTINUA AMANHÃ, COM A DESCRIÇÃO DA MORTE DE SURUBA. E SE NÃO CONTINUAR, PODEM SOLTAR UM INTERPRETAÇO EM CIMA DE MIM.)

Capítulo VIII: Onde não ocorre rigorosamente, pois o narrador estava COMPLETAMENTE BÊBADO

Rondônia ou Milton Ribeiro? Milton Ribeiro ou Rondônia?

Milton Ribeiro estava disposto a reconquistar Suruba para seu nariz. Já Rondônia… Rondônia? Mas onde merda é Rondônia? Milton Ribeiro lembrava das noites quentes em que roçava seu avantajado membro (o nariz) no clitóris da Surubíssima Criatura e nos urros de prazer da mesma. Enquanto isso, Rondônia… Mas que porra é Rondônia?

(Explicação do Conselho Editorial do OPS:

Prezado Autor.

Há 3 estados brasileiros cujas existências são postas em dúvida e ninguém consegue comprovação terminante. São eles Roraima, Acre, Rondônia e Piauí. Antes Amapá também não possuía existência comprovada, mas Sarney pôs aquela merda no mapa. Ignoramos o motivo.)

E Milton Ribeiro foi procurá-la nos camarins de Luiz Caldas. Lá chegando, encontrou Suruba frente a frente com Claudio Bacci di Capaci, conhecido homossexual passivo da Zona Sul de Porto Alegre. Enquanto isso, Rondônia… Mas que porra faz Rondônia novamente aqui?

(Nova intervenção do Conselho Editorial do OPS:

Prezado Autor.

Aos 6 estados brasileiros cujas existências são postas em dúvida gostaríamos de acrescentar Tocantins. Então, ninguém sabe se Roraima, Acre, Rondônia, Piauí, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Tocantins existem efetivamente.)

Bom, a bicha gaúcha queria “ficar” com Suruba, que ria às gargalhadas de suas tresloucadas pretensões na sacada do apartamento. Milton Ribeiro observava tudo. Enquanto isso, Rondônia… Mas vai tomar no cu com Rondônia!

(O Conselho Editorial do OPS intervém novamente.

Que sacada? Que apartamento? Nos camarins do show do Luiz Caldas havia um apartamento com sacada? É isso?)

Bem, então Claudio Incapaci declara… Peraí, não é incapaci… É Claudio Bacci Capado. OK, adiante! Este Claudio aí resolve que vai levá-la para Tocantins. Enquanto isso, Roraima…

(Vocês sabem quem volta a intervir.

O Autor de hoje está bêbado e impossibilitado de escrever a continuidade de nossa novela, desta forma passamos ao próximo Aut…)

Conselho, cale a boca. Oh, de todos os calões que não se pode calar neste mundo calamitoso, ? conquanto o pior calar seja o dos hipócritas, ? o calão da crítica é o mais aflitivo. Por que o Conselho do OPS está atrás de mim?

EU sigo a porra da novela: bem, ninguém encontrava-se atrás de Claudio na sala em que estava com Suruba, mas até que ele gostaria que Rino estivesse por ali com sua jeba matadora. Enquanto isso, Piauí… Mas que merda!

(O Conselho do OPS intima o autor abaixo a retirar-se imediatamente da história de Suruba e pede desculpas aos Senhores Leitores do blog.)

HAHAHAHAHAHAHAHA, não vou embora não!!! Antes vou escrever o diálogo de Suruba e Claudio. Naum saio!

Claudio afirma:

- Suruba, eu dei, mas não sou gay.
- Aaaaaaah, eu te amo, gurizinho querido!
- É que quando vi a glande rosada e os pêlos pubianos do primo Strange fiquei na dúvida e acabei experimentando.
- Sim, eu sou experiente e te digo que talvez não saibas lidar com teus impulsos sexuais. A identidade sexual é algo que se desenvolve com o tempo.
- Eu não me lembro exatamente quando comecei a achar que era gay, mas me lembro que o pensamento de sexo com homens sempre me deixou excitado.
- Ai, estou ficando molhadinha…
- Agora vou te penetrar, gata nojenta.
- Quando tu sonhas ou tens uma fantasia sexual, o objeto de desejo é um cara ou uma garota ?
- É sempre um homem. Vem cá, deixa eu chupar tua boceta.
- Me chupa, caralho.
- Me sinto culpado por ser assim, tudo está misturado à culpa. Sabe… É minha formação católica.
- Teus sentimentos por outros caras é verdadeiro e claro?
- Sim, minha deusa. Eu sonho com um feixe de caralhos me penetrando… Agora abre as pernas para eu te comer gostoso, Suruba.
- Tu e apenas tu sabes a tua verdade. Não deixa que ninguém intervenha para te convencer do contrário.
- Que contrário? Contrário? Vira e me dá a bundinha, sua vaca.

Enquanto isso, no Acre… Vai te foder com o Acre!

Dr. Gregório, médico psiquiatra que estava atrás da porta do banheiro em que os dois se encontravam, dá um chute na porta e declara, ou melhor, berra um INTERPRETAÇO em alto e bom som:

CAPÍTULO VII: Onde se conta a ascensão e a queda de uma próspera empresária musical

Consultei runas, búzios, tarôs, almanaques, bulas, evangelhos, ciganos, pais e mães de santo - e nada. Nem mesmo o infalível Lunário Perpétuo (que sempre me socorre nos momentos de dúvida e angústia) informava com precisão a data em que Dr. Gregório desembarcou na Bahia junto com sua amada (e agora empresária) Suruba. Há registros de que a chegada da nova (e poderosa) família real baiana ocorreu no ano da graça de 1983, mas não se sabe o mês. Alguns historiadores (esta raça de gente ruim que gosta de torturar datas e fatos) garantem que foi no Carnaval “pois havia festa e rebuliço em todos os becos e vielas da velha Soterópolis”. (Apud Cid Teixeira). Mas, qualquer pessoa medianamente informada sabe que tanto poderia ter sido no período momesco quanto na Semana Santa. Afinal, na Cidade da Bahia, a chibança impera o ano inteiro.

Pois muito bem. Enquanto apresento estes inúteis prolegômenos (recebam, sacaninhas, um prolegômeno pelas caixas dos peitos), um ouvinte impertinente liga para esta emissora argumentando que a discussão sobre a data exata é um pormenor de somenos importância. “O povo está a fim mesmo é de ouvir histórias de séquisso e de outras e libidinosas mumunhas”, reivindica. Talvez até seja. Ou não, como diria aqueloutra vedete, a de Santo Amaro. Mas, a verdade que salva e liberta é uma só: a data tem uma influência fundamental, pois, desde o primeiro momento que aportaram por estas plagas, as vidas de Gregório & Suruba vestiram-se de fantasia - seja lá o que quer que isto signifique - e passaram a se confundir com a história do Carnaval Baiano - e consequentemente da própria Bahia. Sobre tão relevante transformação na folia soteropolitana, já, já me pronuncio.

Antes, porém, é necessária uma retificação. Ao contrário do que relatou, no capítulo V, o desinformando Ulisses Adirt, Suruba & Gregório não se conheceram no hospital, mas sim em Porto Alegre, num tranqüilo e infalível final de tarde no Guaíba, em 1983. Apaixonadamente como Peri, a pobre Suruba padecia horrores nas mãos, ou melhor, no nariz de Milton Ribeiro. Mais não digo porque sei que neste horário ainda tem crianças neste impoluto recinto. Garanto apenas que era uma cena dantesca, de fazer ruborizar até Heráclito Mendes (ou seria Gilmar Fortes?). Não sei, mas, como diria os comunistas de antanho, o dado concreto é que Gregório se revoltou com aquela injustiça social, digo sexual. E com toda a sua agilidade malabarística circense, o americano livrou a moça das garras, digo, do nariz de Milton Ribeiro e numa velocidade estonteante partiu rumo à Bahia tal qual a flecha de Tumbu…zift.

Não sei se o sagaz ouvinte percebeu, mas no parágrafo anterior foram usadas as seguintes palavras da música Índio: apaixonadamente, velocidade, estonteante, tranqüilo e infalível. Ficaram faltando, portanto, “o axé do afoxé Filhos de Gandhy”. E foi exatamente neste ajaiô, ajaiô ô ô ô; axé baba, axé babá á á á que a trajetória da música baiana tomou novo e dançante rumo.

Seguinte. Fugindo do Rio Grande do Sul, Gregório, que já era manco, aportou na Baixa do Tubo falando coisas incompreensíveis e monossilábicas para Suruba. E, ao pisar em falso, parecia que estava rebolando (vizualizai, vizualizai). Neste exato instante, Luiz Caldas ia passando e apropriou-se dos trejeitos desconjuntados e dos estranhos sons emitidos pelo americano e… fundou a axé music.

O resto desta história, todo o mundo já sabe. A Bahia e uma banda de Sergipe passaram a agir iguaizinhos a Gregório, cantando e dançando aquela música de adestrar macacos (royalties para Marcelo Nova).

Suruba, que já não era inocente, pura e besta, decidiu empresariar Gregório e Luiz Caldas. E ganhou muito dinheiro. “Mas, como o Brasil nunca ouviu falar dela?”, interrompe a impaciente e rebolativa senhora. Ah, minha comadre, muitas coisas que acontecem na Bahia ninguém fica sabendo. Como diria dona Milu da novela Tieta: “Mistéééério”.

O fato, porém, é que eles estavam vivendo felizes para sempre até que ACM, dono da Bahia e da axé music, faleceu. Desde então, os negócios degringolaram. O fútil sucesso foi substituído por algo muito pior: a perseguição do Fisco. Sim, Suruba, assim como 94,67% das estrelas e empresários da axé music, tinha o saudável hábito de praticar o anarquismo fiscal.

Mas, o próximo contador da história já está impaciente e pede para resumir esta prosa ruim. Pois bem. Antes de passar a bola adiante, informo que a coitada perdeu tudo. Ou melhor, quase tudo. Ainda lhe resta um pouco de dignidade. Exemplo? Seguinte. Entre retornar para os braços, digo nariz de Milton Ribeiro ou para Rondônia, ela está propensa a seguir pela segunda e aliterada opção.

“Rondônia é menos feia do que Milton Ribeiro”, confessou-me, quase sussurrando, antes que eu colocasse um ponto final neste capítulo.

CAPÍTULO VI: Onde se começa a revelar fatos escandalosos e se comete um assombroso erro de concordância logo no título

Ante o pedido de casamento repentino do Dr. Gregório, Suruba ficou confusa. Como o médico exigisse uma resposta naquele instante, viu-se presa de excruciante dúvida. Não sabia se o mandava tomar no cu imediatamente ou comia as gelatinas antes.

Enquanto pensava que solução dar ao intricado problema tarefa árdua para ela, cuja última sinapse havia sido feita ainda na primeira infância, em Rondônia eis que nova dúvida surdiu sorrateira, suja e, sobretudo, segundo semelhança sonora, certamente simbolista , porém, desta vez, na cabeça do autor do capítulo: como o Dr. Gregório, que é manco, segurava a bandeja com o almoço e utilizava a bengala ao mesmo tempo?

Ao contrário de Suruba, no entanto, não arrostei a mesma dificuldade de raciocínio, por um único motivo: nunca estive em Rondônia. Assim, munido de minha autoridade criativa e da segunda via de minha licença poética (o original perdi em recente assalto), logo descobri a resposta para a precípua questão. (O Ministério da Saúde adverte: confundir “pecípuo” com “prepúcio” pode resultar em danos irreversíveis ao aparelho reprodutor.)

Acontece que, vocês não sabiam e eu tampouco, pois acabei de inventar isso , mas em sua juventude, na pequena cidade de Worldsanus, no pacato condado de Whenthewindturns, do progressista estado americano de Wherejudaslost Hisboots, Dr. Gregório havia se juntado a uma trupe de circo, chegando mesmo a ter um caloroso e prolongado affair com a mulher barbada. Isso, apesar de, muito novo e inseguro, suspeitar constantemente de que a companheira o enganava. Afinal, como podia se certificar de que, quando ela dizia que ele a estava penetrando, não estivesse, na verdade, apenas lhe fazendo um boquete?

O relacionamento terminou de forma abrupta e merencória certa madrugada em que o futuro doutor entrou no trailer da artista e, sempre movido pela desconfiança, depois de muito procurar, acabou encontrando um dos anões do triciclo escondido entre os pêlos do queixo da amada. Possesso e violento, o rapaz partiu para cima do homúnculo, disposto a dar-lhe umas boas chifradas. Porém, cego pelo ódio, acabou tropeçando no agigantado pinto da pequena criatura e quebrando a perna o que, segundo alguns, teria originado sua deficiência física. Para outros, no entanto, Dr. Gregório manca em função de um problema mais grave: pura viadagem mesmo.

Seja como for, o fato é que a experiência circense permitia ao médico, muitos anos depois do fatídico incidente, dispensar a bandeja e levar a comida para Suruba, no quarto do hospital, segurando o prato com a mão livre, equilibrando o copo de suco na cabeça, prendendo os talheres entre os dentes, conduzindo um dos potes de gelatina sobre a clavícula esquerda, enquanto girava um bambolê na cintura, tomava um café expresso, lia a Folha de São Paulo, escovava os dentes e cantava Adocica. Como conseguia fazer isso? Não sei, mas acho incrível: nunca consegui ler a Folha de São Paulo.

“E o segundo pote de gelatina?”, perguntará o leitor, provavelmente desobrigado de atividade remunerada e aplicado a friccionar com a unha a pele que reveste as gônadas. Bem, digamos que, se o Dr. Gregório se dispusesse a seguir o conselho que Suruba estava prestes a lhe dar, teria que desalojar o recipiente de sobremesa antes.

Voltemos, então, a esse momento decisivo na vida de nossos personagens, quando, feita a proposta por parte do médico, Suruba hesita, já agora se perguntando se seria acertado reagir de forma tão agressiva para com aquele que vem cuidando de sua saúde e por quem nutre um grande carinho de cerca de trinta e cinco centímetros, mais ou menos.

“Não deveria conter-me e dar uma resposta diferente?”, questiona-se, empregando ênclise, segundo orientação do Sindicato dos Autores de Diálogos de Telenovela. “E se, em vez de mandar ele tomar no cu, eu fosse mais compreensiva e simplesmente o mandasse à merda ou à puta que o pariu?”

Neste momento, contudo, seu fluxo de consciência é interrompido, por dois motivos. Primeiro, porque isto aqui não é romance modernista do início do século XX e, segundo, porque a porta de repente se abre e um homem magro, grisalho e narigudo adentra o quarto, trêmulo. (Espaço reservado para trocadilho em que se afirmaria que o homem é que está trêmulo, não o quarto, e que não foi utilizado pelo autor.) (Novo espaço, reservado a outro trocadilho, agora para dizer que o que o autor não usou foi o trocadilho, não o quarto. Ainda que o autor tampouco tenha utilizado o quarto. Enfim…)

Voltando-se para o recém-chegado, pálida, respiração entrecortada, Suruba balbucia, sem acreditar no que está vendo:

Milton Ribeiro?! Vo… você… Aqui? Mas… Como? Meu Deus! Como?
Coma, sim  responde o intruso. O prato de comida tá esfriando aí há dez parágrafos, é melhor comer mesmo.

Suruba não ouve. Aquele improvável reencontro a deixou petrificada. Milton Ribeiro… Porto Alegre… Fins de tarde no Guaíba… 1983…

Tomada por intensa emoção, nossa heroína não resiste e desmaia. Milton corre para socorrê-la e comete assim uma terrível aliteração, coisa absolutamente condenável em alguém que mantém um blog sobre literatura.

E aqui se encerra o capítulo, com Ribas a apenas um palmo de nossa heroína, o nariz de Ribas já tocando em nossa heroína e o Dr. Gegório finalizando o caderno de esportes e completando o milionésimo oitavo giro de bambolê.

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